Carta para alguém que já se foi…

04/11/09

Caro Rev. Moss,4-arthur-moss.jpg

Paz e Bem!

Lendo o seu último escrito no final do seu período como Capelão em Belém, datado de outubro de 1930, antes de seu retorno à capital do Pará após sua aposentadoria, encontrei essas palavras: “Eu posso somente expressar minha esperança que o livro de relatórios será mantido seguro na igreja para referências futuras”.
Infelizmente tenho que lhe comunicar que grande parte dos seus relatórios se perderem, mas alguns foram realmente preservados com carinho. Agora são instrumentos importantes com os quais resgatamos a memória de um período fundamental da nossa história.
Todavia, gostaria de dizer que mais do que páginas datilografadas com dados estatísticos, financeiros e pastorais, você deixou uma comunidade de fé. Talvez nem tenha acreditado que ela se manteria firme durante tanto tempo! Sei que a situação estava muito difícil aqui. Edward Francis Every, bispo das capelanias inglesas na América do Sul, disse que a depressão econômica no Norte do Brasil era pior do que em outras partes do mundo, muitos imigrantes haviam deixado a região e aqueles que permaneceram se viram empobrecidos. Ele também escreveu que a “Igreja no Pará estava à beira de um desastre” e só não fechou devido ao seu trabalho… Pois, bem, meu irmão, aqui estamos nós, celebrando 97 anos. E isso, graças a você!
É bem verdade que você não reconheceria Belém, a cidade mudou muito desde então, já não encontramos tantos lepidópteros quanto antes… Foram, em parte, dizimados pela poluição. Algumas pessoas ainda lembram que você, como um estudioso de insetos (entomologista), saia com sua rede a capturar borboletas para catalogá-las e enviar suas pesquisas para o Museu de História Natural de Londres. E as orquídeas? Lembra que você escreveu um livro sobre as orquídeas em Belém? Algumas resistem em parques, museus e no nosso jardim…
Também não somos mais uma capelania para imigrantes, mas uma comunidade formada na sua grande maioria por brasileiros. Lembra que você estava preocupado com os descendentes dos barbadianos que estavam deixando de ler e escrever em inglês? Muitos deles ainda permanecem conosco, segunda, terceira, quarta geração, mas agora estão totalmente aculturados… Os antecedentes caribenhos é uma memória guardada com carinho, mas muito distante, desbotada pelos muitos anos.
As coisas mudaram muito! Nós, agora, formamos uma diocese, envolvendo cinco estados da região Amazônica. Imagine quanto chão temos que andar… Mas tenho certeza que você sabe bem o que é isso, pois não media esforços para atender seu povo na estrada de ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho, no Recife e em Salvador. E sabemos que as condições de viagem naquele tempo eram bem mais difíceis do que atualmente… Na nossa Diocese somos nove comunidades, sei que não é muito para tanto tempo de história, mas vamos fazendo o possível com nossas limitações, confiando na ação do Espírito Santo. E a paróquia que você construiu é a Catedral, a Igreja Mãe, aquela que tem a missão de ser o centro irradiador do Evangelho.
Tenho também notícias não muito boas, lembra do órgão de tubos que você acompanhou todo o processo de construção?  Até mesmo quando foi desmontado em pedaços para ser embarcado para o Brasil? Foi destruído pelos cupins e seus tubos foram vendidos para a então Catedral Anglicana da SS. Trindade no Recife. Não havia como recuperá-lo… Na verdade penso que você sabe de muita coisa, até mesmo porque acho que você recebe notícias através daqueles que já partiram para as “mansões celestiais”. Também queria lhe dizer que o Daniel não é mais nosso jardineiro e não temos mais um pomar… Por outro lado, temos um ótimo jardineiro, talvez tão bom quanto Daniel, e nosso jardim continua muito bonito. Você precisa ver… Mas, apenas duas ou três árvores frutíferas.
Para encerrar meu irmão, em nome dos anglicanos da Amazônia, em nome da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, em nome dos nossos parceiros ecumênicos, gostaria de agradecer muito pela sua devoção, pelo seu amor a Igreja. Por causa disso é que estamos lhe escrevendo… Um dia, como diz nosso Livro de Oração em português, não tinha mais sentido continuar usando o Book of Common Prayer de 1662, nós nos encontraremos nos “umbrais da eternidade”. Então, pessoalmente vou lhe dar um grande abraço.

Seu, em Cristo,

+Saulo Barros
Bispo da Diocese Anglicana da Amazônia.

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